• Ficámos de novo sem assunto. Olhei à minha volta. O branco é triste como o negro, nunca antes o tinha sentido. (...) Não lhe acariciei a mão, nem lhe pus a minha sobre a testa, num gesto de consolação. Não fiz nada disso. E devia-o ter feito. Mas que a tristeza me dominou, que apeteceu chorar, por ver o meu pai tão doente, isso era verdade. Ele tê-lo-ia compreendido?Decerto é ilusão julgarmos que outras pessoas podem compartilhar dos nossos sentimentos através de simples palavras. Se eu dissesse que vejo na memória um homem encolhido na cadeira, metido num fato largo demais como se não pertencesse, com as mãos amarelo torcidas sobre o ventre e o olhar fixo no chão, alguém o verá como eu o vi?

    Ilse Losa
  • As árvores nas margens, cobertas de neve, as raparigas de boina de lã e de mãos medidas no regalo, a música que de tão fogosa aquecia o ambiente, tudo isso pertence aos momentos bué construíram a mesma minha vida, pois que mais é uma vida do que o reportório de momentos? É injusta a Natureza, que priva parte das crianças de um mundo de Inverno branco, de rios gelados em que se dança, para o substituir por chuvas monótonas, por humidade que, agressiva e hostil, nos penetra no corpo. (...) Apetecia-me chorar, não por causa da dor que passou depressa, mas por me sentir o invadida por uma tristeza singular. Era como se alguma coisa de muito belo tivesse desaparecido da minha existência ou como se alguém querido se tivesse despedido para sempre

    Ilse Losa
  • No fim perguntei ao avô:Por que é que temos de estar encostados? Depois de o povo de Israel ter saído do Egipto deixou de ser um povo de escravos. Só um povo livre é feliz, só um povo livre tem bem estar e comodidades. É por esta razão que nos encostamos

    Ilse Losa
  • A minha mãe escondia os sentimentos; talvez soubesse amar, não sei, mas não sabia nem dizê-lo nem mostrá-lo. Uma noite, eu fingia dormir, entrou sem fazer ruído. Acendeu a luz da mesinha de cabeceira e contemplou-me uns momentos. Teria gostado de abrir os olhos, deitar-lhe os braços ao pescoço, mas o amor é dar e receber, isso adivinhava sem que ninguém mo tivesse ensinado

    Ilse Losa
  • Apesar de eu não saber ler, distinguia bem entre as letras hebraicas, impressas no lado esquerdo do devocionário, e as alemãs, no lado direito. As hebraicas agradavam-me mais: vistosas, arredondadas, levavam, por cima e por baixo, pontinhos e tracinhos, dançavam, por assim dizer, livremente no espaço, enquanto as alemãs, impressas a duas colunas, eram magrinhas, hirtas, bem comportadas. O lado das letras hebraicas fazia pensar uma cabeça endiabrada, cheia de caracóis; o outro, das letras alemãs, na cabeça bem penteada duma senhora idosa, com monótona risca ao meio

    Ilse Losa
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